Notícia

Os desafios da participação social

por Cândido Azeredo*

Pedras no caminho de uma gestão pública colaborativa e aberta.

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Ano passado, quando ainda morava no Rio de Janeiro, escrevi artigo semelhante para a rede do CETEM (Centro de Estudos Temáticos da Administração Pública) e da CIM-SP (Célula de Inovação do Município). Entretanto, depois de me mudar para o sul da Bahia (em um distrito de 4 mil habitantes, dentro de um município de 25 mil), terra de Jorge Amado, o que tenho aprendido me estimula a complementar a reflexão.

A gestão pública municipal e seus componentes – escolas, postos de saúde, saneamento, conselhos, plano diretor, etc. – nos impactam onde nós vivemos. Então, por que as pessoas não se envolvem cada vez mais nesta gestão? Seria por apatia, preguiça, desinteresse, conformismo? Dave Meslin, famoso ativista e mobilizador canadense, diz que não. Estou inclinado a concordar.

Meslin identificou algumas barreiras que dificultam tomarmos parte no cuidar do bem-comum, mesmo quando verdadeiramente nos importamos. As seis barreiras iniciais são sugestão dele. As últimas três são a minha contribuição. Sem dúvida existem outras. Seria útil listá-las, entendê-las, estudá-las. Mas estas poucas já fazem um tremendo estrago:

1.

Comunicação inapropriada usada pelos governos. Decorrente da intencionalidade de excluir a sociedade (não envolver realmente, apenas de cumprir as exigências legais de transparência e participação), da pouca importância dada à comunicação para engajamento ou do desconhecimento de como fazê-la de forma efetiva.

2.

Baixo uso dos espaços públicos como meio de comunicação para informações de interesse coletivo. Devido à privatização, à especulação imobiliária e ao alto preço dos espaços e suportes de comunicação na cidade.

3.

Baixo interesse dos canais de comunicação de massa (jornais, revistas, tv, etc.) em informar fatos e eventos de gestão pública com a intenção de promover a participação dos cidadãos. Como se tratar de política e governo fosse algo passivo e apenas informativo, que não exigisse o envolvimento ativo e frequente das pessoas.

4.

Existência de uma crença (cultura) de que política e governo são feitos por poucos e por pessoas especiais: líderes políticos, profissionais da área e especialistas. E não pela sociedade de forma continua e diária (além das eleições, referendos, etc.).

5.

Os partidos políticos (que idealmente poderiam ser um dos principais canais de participação política da sociedade) são pouco inspiradores, pouco criativos, e pouco confiáveis. Da mesma forma, são conservadores, centralizadores e demagógicos.

6.

O processo eleitoral ainda é um esforço competitivo, de convencimento e de propaganda, focado na conquista de votos e não na construção de redes distribuídas de apoio, troca e colaboração. Infelizmente, não é um processo de diálogo e de reflexão contínuo, amplo e aberto.

7.

Medo de ser excluído, julgado ou de sofrer algum tipo de retaliação, de violência. A gestão pública é confundida e infectada pela política partidária, que essencialmente é vivenciada como uma disputa por poder e recursos. Atuar neste campo lembra o das torcidas organizadas. Mesmo que não se vista a camisa de um time, criticar e elogiar a atuação de uma das partes, ou mesmo conviver com integrantes dela, facilita ser classificado como da base ou da oposição. Ou é amigo ou inimigo. Participar da vida pública, de forma neutra, apartidária, sem ser rotulado é desgastante e arriscado. Se você vacilar, pode ser sugado pela dinâmica do ganha-perde e ser vítima do seu modus operandi. Pior ainda, se se defender um ponto de vista diferente e conflitante com os times da primeira divisão.

8.

Descrença e ceticismo de que seja possível mudar. Principalmente quando se tem experiência de vida e boa memória. Nossa história está repleta de ganhos sociais, mas uma abundância de perdas, dores e desilusões. Mudar é trabalhoso, demorado e angustiante. Com frequência, os atuantes sentem-se enxugando gelo. É comum preferir engolir um problema a ralar para solucioná-lo, com grandes chances de amargar o insucesso.

9.

Custo da participação. Não é leve e divertido fazer parte da solução. Navegar contra a maré da burocracia, dos mandos e desmandos, exige energia, resiliência e paciência. E a coisa fica tanto mais difícil quanto menos recursos se tem, sejam materiais, intelectuais, sociais ou de tempo. O dia-a-dia de grande parte da população consiste mais em sobreviver do que em viver a plenitude de seus direitos. Quanto mais carente uma pessoa, mais complicado é engajar-se (exceto quando o engajar torna-se a principal resposta para a sobrevivência).

Agora, como lidar com elas? Seria uma boa estratégia bater de frente, ir contra? Ou seria mais fácil ignorá-las e seguir adiante? Talvez fosse mais efetivo contorná-las? Ou utilizar sua força contra elas mesmas? Todas as alternativas anteriores? Independente da resposta, é um grande passo ter consciência destas barreiras e isto faz uma baita diferença quando queremos cuidar do nosso bem-comum.

Este texto foi publicado originalmente no site Eco Rede Social, sua reprodução foi autorizada pelo autor Cândido Azeredo. Veja a matéria original na íntegra: Eco Rede Social

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