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Artigo – ‘Um monumento esquecido:o Obelisco ao Dois de Julho’

Por: Danilo José Messias Marques[1]

Em minhas pesquisas venho tentando privilegiar diversos aspectos de nossa história, dedicando-me ao estudo dos monumentos e sua perenidade no espaço urbano. A propósito, segundo o historiador Paulo Knauss, no cotidiano das cidades os habitantes circulam por ruas, praças e jardins que abrigam objetos cujo sentido nem sempre é compreendido[2]. Esse é o caso de Ilhéus, que possui um rico acervo histórico e artístico ainda desconhecido por grande parte da população.

O objeto ao qual dedico minha análise completa hoje noventa e dois anos. Trata-se do Obelisco ao Dois de Julho, monumento erigido no primeiro quartel do século passado em comemoração à data magna da Bahia. Passo agora a observar algumas fontes que permitem fazer um esboço sobre os fatos em torno da construção desse marco esquecido em nosso município.

Em 1822, os conflitos contra a presença portuguesa em solo brasileiro acirraram-se sobremaneira. Na Bahia, a luta armada encontrou seu desfecho em 2 de julho de 1823,consolidando a Independência da Bahiae consagrando personagens como Joana Angélica, Maria Quitéria, Cipriano Barata e Pierre Labatut.

A partir de então, esse evento passou a receber diversas homenagens, a exemplo do batismo de ruas, praças e avenidas com temas alusivos à principal data comemorativa da Bahia. Em Ilhéus, a construção da Avenida e do Obelisco ao Dois de Julho cumpria o papel de reverenciar os vultos e comemorar as conquistas de 1823.

A iniciativa de construção do monumento partiu do intendente Mário Pessoa que, no dia 2 de julho de 1925 lançou sua pedra fundamental, justificando-o como o maior “preito de gratidão que o governo prestava aos grandes vultos da Independência […][3]”. A intenção era manter viva no município a memória sobre o evento histórico, transmitindo às gerações futuras o nome dos heróis do 2 de Julho.

A inauguração do Obelisco e do Belvedere efetuou-se no dia 2 de julho de 1927. Nesse dia,toda a cidade estava preparada para comemorar a imponente data cívica, bem como ansiosa para receber seu novo espaço de lazer:

No dia 2, desde as primeiras horas da manhã, apresentava aspecto festivo. Lanhas e saveiros embandeirados, prédios públicos, associações, casas commerciaes, empresas, etc. com a bandeira nacional a tremular, o Tiro 500 em galharda passeata pela cidade, precedido da banda da Euterpe 3 de Maio, movimento de autos e cyclistas, emprestavam à cidade uma grande alegria[4].

Com ampla participação da sociedade ilheense,a solenidade foi realizada no final da tarde daquela segunda-feira onde no local (figura 1),encontrava-se crescido “numero de Exmas. Famílias, Senhoras, cavalheiros e crianças, que aguardavam a hora marcada para o ato inaugural[5].”

Figura 1: Inauguração do “Obelisco e Belvedere” (02 de julho de 1927). Foto: Alexander Fâmula.

A cerimônia teve início com o intendente Mário Pessoa proferindo um discurso sobre as razões que justificavam o levantamento daquele monumento. Logo após,acompanhado pelo engenheiro Alberto Pereira, representante da Chefia de Fiscalização do Porto, ele descerrou a bandeira brasileira que cobria o Obelisco, o que foi seguido por salva de palmas e execução do Hino Nacional pela filarmônica Euterpe 3 de Maio.

O empreendimento ora entregue à população era composto por um Obelisco, monumento constituído de um pilar decantaria em forma quadrangular ligeiramente afunilada em direção ao topo, formando uma pequena pirâmide;e de um Belvedere, pequeno mirante formado por uma murada com 78 balaústres. (figura 2).

Figura 2: Obelisco e Belvedere na Avenida Dois de Julho (década de 1920). Foto: autor não identificado.

O jornal Correio de Ilhéos assim o descrevera no dia de sua inauguração:

O obelisco mede 9 metros de altura, apoiando-se sobre uma base em escadaria, e està collocado no centro do belvedere, rodeado de balaustres, do lado do mar. Encimado por um jogo de lampadas, nas quatro faces, em cada uma das quaes se veem inscripções em placas bronze macisso, allusivos ao 2 de Julho. Na frente estão as seguintes: Independencia ou Morte – Joanna Angelica – Anna Nery – Maria Quiteria – Ilhéos aos heróes de 2 de Julho de 1823 – AVENIDA 2 DE JULHO, ADMINISTRAÇÃO DO DR. MARIO PESSOA. Do lado do Norte: – 2 de Julho de 1823 – Labatut – Lima e Silva – Cypriano Barata – Cochrane – Montezuma – Do lado do Sul: Porto Seguro – Funil – Cachoeira – Itaparica – Pirajá – Cabrito – Lado do mar – Ilhéos – Carneiro de Campos – Rodrigo Brandão – Borges de Barros – Lino Coutinho – 2 de Julho de 1927[6].

As placas de bronze que ornamentavam o Obelisco foram saqueadas ao longo do tempo, em razão da ganância de pessoas que desconheciam o valor histórico dessas peças, restando hoje no local apenas uma alusiva ao Funil (figura 3), local onde se travou uma das históricas batalhas da luta pela Independência da Bahia.

Figura 3: Placa em bronze com a inscrição Funil.
Foto: do autor.

Entre as décadas de 1960 e 1990, o Belvedere em torno do monumento foi utilizado como anexo do extinto restaurante Os Velhos Marinheiros. Sua área era aproveitada como espaço ao ar livre onde os clientes – entre petiscos, bebidas e boa música – desfrutavam de um ambiente privilegiado com vista para o mar, tendo ao fundo o belo Morro de Pernambuco (figura 3).

Figura 3: Obelisco e Belvedere (década de 1960).
Foto: autor desconhecido

Esse importante exemplar de nosso patrimônio histórico atravessou nove décadas, chegando até os nossos dias como um elo com nosso passado. Atualmente, persiste incógnito entre coqueiros e amendoeiras (figura 4), relegado pelo município e às voltas com o risco de ser ainda mais descaracterizado pelas obras de urbanização em torno da construção da nova ponte Ilhéus-Pontal.

Figura 4: Obelisco e Belvedere (2 de julho de 2012).
Foto: Danilo Marques.

A maior ameaça ao Obelisco ao Dois de Julho,no entanto é o desconhecimento por parte dos ilheenses sobre sua história, razão pela qual não constituem uma relação de identificação com aquele monumento. Cabe a nós preservá-lo, ressaltando a relevância de sua manutenção em nosso município,como uma importante página dos inúmeros capítulos de nossa rica história.

[1]Especialista em História do Brasil pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

[2]KNAUSS, Paulo (coord.). Cidade vaidosa: imagens urbanas do Rio de Janeiro/ Paulo Knauss ET alii – Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999, p. 136.

[3]CEDOC/UESC. Correio de Ilhéos, 2 de julho de 1925, p. 2.

[4]CEDOC/UESC. Correio de Ilhéos, 3 de julho de 1927, p. 1.

[5]Ibidem.

[6]CEDOC/UESC. Correio de Ilhéos, 3 de julho de 1927, p. 1.

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