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Artigo – “De braços abertos na entrada do ancoradouro”: o monumento ao Cristo Redentor de Ilhéus

Por: Danilo José Messias Marques[1] – Especialista em História do Brasil pela Universidade Estadual de Santa Cruz.


Ao circularmos pela cidade, nos deparamos com uma diversidade de imagens e símbolos que, por sua localização ou singularidade, acabam servindo de orientação para seus habitantes. De acordo com o urbanista Kevin Lynch, esses “elementos marcantes” constituem-se como verdadeiros pontos de referência, funcionando como indicações seguras do caminho a seguir[1].

Alguns desses elementos são tão eficientes, que acabam se consolidando como verdadeiros marcos urbanos, que segundo Leonardo Oba, “são produtos sociais e culturais vinculados ao processo de construção da cidade e da sua identidade”[2]. Esse é o caso do Cristo Redentor de Ilhéus, que ao longo dos anos foi consagrado como uma referência espacial que extrapola a simples denominação de uma praia, destacando-se por sua importância histórica e identificação com os habitantes.

A iniciativa da construção de um monumento ao Cristo Redentor em Ilhéus partiu do prefeito Mário Pessoa, que em 20 de fevereiro de 1941 lançou um edital para a construção da estátua nos rochedos da entrada da barra, na Avenida Dois de Julho. De acordo com ele, as propostas deveriam ser encaminhadas para a diretoria de obras públicas do município, comandada pelo engenheiro Heraldo Ribeiro de Oliveira num prazo de trinta dias, devendo conter informações como o preço unitário e global da obra, as condições de pagamento e o prazo para a conclusão do serviço, que fora fixado em 20 de junho daquele ano[3].

A única proposta apresentada ao município foi a do escultor baiano Pedro Ferreira, que já havia executado algumas importantes obras sacras, a exemplo de uma imagem do Senhor do Bonfim, oferecida pela Bahia à cidade de São Paulo e outra de São Francisco, colocada na igreja de mesmo nome, em Salvador. O escultor orçou a obra em 86:500$000 (oitenta e seis contos e quinhentos mil réis)[4]. Pedro Ferreira veio à Ilhéus para apresentar uma maquete do monumento, que ficou exposta em uma vitrine da Casa Arnaldo, “causando a melhor impressão e sendo muito admirada por todos, dando idéa da grandiosidade e imponência da obra do artista bahiano”[5].

Por razões contratuais, o acordo entre o escultor e a prefeitura foi rompido, obrigando o município a contratar um novo executor para a obra. A escolha recaiu sobre o renomado artista italiano Pasqual De Chirico, com uma infinidade de peças espalhadas por todo o país, além de um velho conhecido da administração municipal, já que houvera prestado relevantes serviços à cidade na primeira gestão Mário Pessoa (1924-27), a exemplo da confecção dos bustos do poeta Castro Alves e do Barão do Rio Branco. Como não pôde vir pessoalmente a Ilhéus, De Chirico enviou o projeto acompanhado de um modelo de 2 metros de altura, cuja ampliação coube ao escultor Valdemar Tavares, sob a supervisão do arquiteto Salomão da Silveira. Ao ser concluído, o monumento em concreto armado e revestido com pedra cinzenta possuía 8 metros de altura, sendo assentado sobre um rochedo de 5 metros e com uma envergadura de mão a mão que alcançava 7 metros e 20 centímetros[1]. A réplica que serviu de referência para a estátua foi colocada, por deliberação do prefeito, no salão do júri do município.

Em Ilhéus, assim como no caso do Rio de Janeiro, a opção foi pela imagem do Redentor, uma tendência iniciada nos anos 20 pelo Papa Pio XI, que através da “doutrina do Cristo Rei” buscava ampliar a presença da Igreja na sociedade, promovendo a realização de grandes cerimônias públicas. Tal mudança influenciou também a confecção de esculturas sacras, que além das dimensões monumentais procuravam alterar as imagens predominantes em torno da Paixão e Morte de Cristo, que no período colonial estava centrada na figura do Cristo Sofredor – o Bom Jesus – e, a partir de meados do século XIX, na imagem do Sagrado Coração de Jesus. O objetivo agora era retratar o Cristo Rei, “o Cristo ressuscitado e glorioso”[2].   

Programada para o dia 10 de novembro de 1942, a inauguração do monumento ao Cristo Redentor (figura 1) foi realizada na manhã daquela terça-feira, estando a Avenida Dois de Julho e os prédios públicos do município ornamentados com bandeiras nacionais. No local, grande número de pessoas aguardava para acompanhar a solenidade, marcada para as 9 horas. Atendendo a uma solicitação do prefeito, o comércio fechou as portas naquela ocasião, não havendo expediente na prefeitura municipal[3].

Figura 1: Festividades em torno do monumento ao Cristo Redentor (1942). Foto: Francino

A cerimônia foi iniciada com um discurso improvisado feito pelo prefeito Mário Pessoa, que reforçou a passagem do primeiro quinquênio (5 anos) da Constituição Federal de 1937, destacando as ações do governo Getúlio Vargas em meio ao momento angustioso em que a humanidade se via imersa na Segunda Guerra Mundial. Em seguida, ele convidou o bispo diocesano de Ilhéus, Dom Felipe Condurú Pacheco a “descerrar o vasto véu que encobria a estátua do Cristo Redentor. S. Excia. Rvma. sobe o pedestal e, puxando das cordas, surge, na beleza e na harmonia de suas linhas impecáveis, o vulto do Divino Mestre”[1]. Após alguns minutos de aclamações e salva de palmas, o prelado procedeu o ato de benção do monumento, proferindo um devotado e eloquente discurso, que arrematou com as seguintes palavras:

Hestia branca ao espaço azul suspensa, simbolo da nossa crença e afirmação da nossa esperança, o Salvador, em sua figura alvinitente, ergue-se doravante entre a verdejante terra ilhêense e seu luminoso céu ridente, qual maravilhoso farol a brilhar em nossos dias, ensolarados ou tristonhos, e em nossas noites, densas ou consteladas […]. Do alto do pedestal, que o nosso afeto lhe construiu logo ao portico da nossa cidade, Jesus abrindo os seus largos, amorosos braços paternais, para um amplexo amigo, patentêia-nos, em toda a sua latitude e profundidade, as riquezas do amor infinito do seu Coração. E aos que aqui aportam, vindos do largo mar oceano – das orlas do nosso Brasil querido ou das bandas remotas do Oriente infindo, tumultuoso – esquecido das injurias, para só recordar os carinhos e o valor do seu sangue generoso, Êle convida: “Vinde a Mim, todos vós que vogais sobre as ondas revoltas da vida! Eu vos perdoarei e reconfortarei! Vinde! Aqui está a Ilhéus fertil, ilustre e de cujo regaço só transborda a Caridade. Vinde! Ela vos recebe e no meu amplexo divino ela vos bendirá”! […] Êle a todos tranquiliza, abroquelando-os em seu imenso peito de Pai e de nunca, jamais doloso Amigo, antes sempre tido e dadivoso: “Vós me constituistes o Guarda da vossa Cidade nobre e piedosa. Não temais! Aqui estou! Enquanto estiverdes, voluntaria e religiosamente, como vosso escudo e fortaleza – Eu estarei comvôsco, para vossa defeza e proteção! Vinde! Não temais! Eu sou Jesus”![1]


Como parte das festividades foi realizada uma corrida de 13 quilômetros partindo da localidade do Gameleiro (bairro da Conquista), com chegada programada para a Avenida Dois de Julho, na altura do monumento. Houve ainda a participação de escolas públicas, como o Ginásio Municipal e o Orfanato D. Eduardo e particulares, a exemplo do Colégio Nossa Senhora da Piedade, com destaque para os alunos que declamaram os poemas “Jesus sobre a ondas” e “Jesus acalmando as ondas”. Encerrando o evento pela manhã, a filarmônica Santa Cecília executou o “Hino Brasileiro e Cristão Serú”.

À noite, integrando as comemorações em torno da inauguração do Cristo Redentor, foi realizada a solenidade de instalação do curso de samaritanas socorristas da filial da Cruz Vermelha Brasileira, sediada no palacete Misael Tavares, à qual participou o prefeito Mário Pessoa a convite do secretário da instituição, o Dr. Antônio Viana. A aula inaugural do curso foi realizada pelo decano da classe médica e presidente da Sociedade Médica dos Hospitais de Ilhéus, o Dr. João Batista Soares Lopes[1].

O encerramento do extenso programa comemorativo se deu com mais uma apresentação da filarmônica Santa Cecília, que brindou aos que compareceram a mais nova praça da fé católica naquela noite com algumas peças do seu refinado repertório, sendo a estátua do Cristo Redentor na ocasião iluminada por possantes refletores, que realçaram ainda mais a beleza e imponência do monumento[2]. A estátua do Cristo Redentor é uma obra pensada para um espaço aberto, não o confinamento de uma igreja ou oratório, mas tendo como cenário a cidade. Construída numa escala apropriada para tornar-se parte da paisagem urbana, tinha a função de saudar as pessoas que acessavam a cidade através do seu porto, como informava o jornal Diário da Tarde no dia de sua inauguração, cuja primeira página estampava a manchete “De braços abertos na entrada do ancoradouro”[1]. A opção por uma estátua de caráter monumental portanto, “tinha como objetivo alcançar um público muito maior, ou seja, todos os cidadãos”[2].

Elevado à condição de cartão postal pelos ilheenses, o Cristo Redentor é único em suas linhas e formas marcantes, figurando entre os mais importantes exemplares do nosso patrimônio histórico e tendo sua imagem difundida pelas principais peças de propaganda turística do município, dentre outras razões pelo apelo à similaridade com a famosa estátua carioca no Alto do Corcovado. Tal semelhança levou inclusive a suscitar algumas ideias esdrúxulas, como a que propunha o seu “fatiamento” e translado para o Morro de Pernambuco o que, felizmente, acabou não acontecendo.

Há 77 anos, do alto do pedestal onde fora assentado, o Cristo Redentor de Ilhéus (figura 2) abre seus braços na Avenida Dois de Julho. Recepcionando com um largo abraço aos visitantes e ilheenses que no passado cruzavam a perigosa entrada da barra a bordo dos antigos vapores, sua presença renovava a esperança de transpô-la em segurança a cada chegada ou partida. Hoje, ofuscado pela gigante de concreto e aço que ora se ergue à sua frente seguirá, mesmo sem o zelo adequado, abençoando a pescadores, banhistas e todos que cruzarem diariamente a nova ponte Ilhéus-Pontal, sempre “De braços abertos na entrada do ancoradouro”.

Figura 2: Cristo Redentor de Ilhéus (década de 1950). Foto: Melquisedeque Xavier [16]

[1] Especialista em História do Brasil pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

[2] LYNCH, Kevin. A Imagem da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 90.

[3] OBA, L. T. Os marcos urbanos e a construção da cidade. São Paulo, 1998. 327 f. Tese (Doutorado em Estruturas Ambientais Urbanas) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo.

[4] CEDOC/UESC. Jornal Oficial do Município de Ilhéus, 20 de fevereiro de 1941.

[5] Disponível em: http:// ilheuscomamor.wordpress.com. Acesso em: 06 de outubro de 2019.

[6] CEDOC/UESC. Jornal Oficial do Município de Ilhéus, 19 de maio de 1941.

[7] CEDOC/UESC. Diário da Tarde, 10 de novembro de 1942.

[8] GRINBERG, Lucia. República Católica, o monumento ao Cristo Redentor do Corcovado. In: KNAUSS, Paulo (org). Cidade Vaidosa: imagens urbanas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Sette Letras, 1999, p. 62.

[9] CEDOC/UESC. Jornal Oficial do Município de Ilhéus, 19 de maio de 1941.

[10] CEDOC/UESC. Jornal Oficial do Município de Ilhéus, 12 de novembro de 1941.

[11] Ibidem.

[12] CEDOC/UESC. Diário da Tarde, 9 de novembro de 1942.

[13] CEDOC/UESC. Diário da Tarde, 10 de novembro de 1942.

[14] CEDOC/UESC. Diário da Tarde, 10 de novembro de 1942.

[15] GRINBERG, Lucia. República Católica, o monumento ao Cristo Redentor do Corcovado. In: KNAUSS, Paulo (org). Cidade Vaidosa: imagens urbanas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Sette Letras, 1999, p. 60.

[16] Disponível em: http:// biblioteca.ibge.gov.br. Acesso em: 06 de outubro de 2019.


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