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Artigo – ‘Castro Alves vai desaparecer…’

Por: Danilo José Messias Marques[1]

Foi com surpresa que recebi, no último dia 3 de junho,uma notícia que muito me entristeceu: a do Projeto de Lei que propõe retirar o nome de Castro Alves da sua praça. Sim, é natural que no decurso das transformações sociais e políticas por que passam as cidades tais mudanças ocorram, adequando o espaço urbano às demandas e os referenciais socioculturais próprios de seu tempo,mas penso que um pouco de nossa memória histórica se perde com essa proposição do legislativo municipal.

Notem, não estou questionando a legitimidade do pleito, respaldado pela Lei Orgânica do Município de Ilhéus, conforme o inciso XIV do artigo 32, que tratada competência da Câmara Municipal, concedendo-lhe “autorização para mudança e denominação de próprios, vias e logradouros públicos”[2]; nem tampouco me colocando contra a homenagem à Irene, famosa quituteira ilheense que tornou-se referência cultural e espacial para moradores e turistas, devido aos muitos anos dedicados à venda do seu famoso acarajé no tradicional ponto localizado naquela praça. Minha preocupação é com a preservação de nossa história local, há muito negligenciada pelo poder público.

Parte considerável de nosso patrimônio histórico e artístico, a propósito, vem sendo perdido ao longo do tempo, deixando uma enorme lacuna em nosso arcabouço cultural. O que dizer das belas estátuas do Banho e da Poesia que ficavam, respectivamente, nas praças Conselheiro Luiz Viana (atual Dom Eduardo) e J. J. Seabra, que muitos sequer ouviram falar? Do suntuoso Chafariz em ferro fundido da Praça Coronel Pessoa?Como esquecer dos tradicionais Leões deitados sobre as patas, misteriosamente desaparecidos do Palácio Paranaguá? Sem falar no busto do Barão do Rio Branco, retirado da antiga praça que ostentava seu nome.

Chamo a atenção, em particular, para o caso da Praça Barão do Rio Branco. Originalmente contígua à rua Marquês de Paranaguá, onde hoje se encontra o prédio dos Correios, a praça foi transferida para o bairro da Cidade Nova, no final da década de 1930. Em 1926, o então intendente Mário Pessoa encomendou junto ao escultor italiano Pasquale De Chirico o busto do Barão do Rio Branco, que chegou a Ilhéus somente no ano de 1928. Voltando ao comando do município ele promoveu a inauguração da praça e da escultura do ilustre diplomata brasileiro naquele local, fato registrado no dia 28 de junho de 1941, data comemorativa dos 60 anos de emancipação política da cidade de Ilhéus.

Desde 1980, a praça passou a ser denominada Antônio Viana, homenagem ao médico fundador da Casa de Saúde São Jorge. A partir daí, o busto do Barão do Rio Branco (figura 1) ficou negligenciado num canto desse logradouro, sem qualquer zelo por parte do município, nem mesmo uma placa que o identificasse. Em 2015, em meio a uma obra de requalificação daquele espaço, o busto desapareceu após ser removido pela construtora responsável pelo empreendimento. Meu receio é de que agora ocorra o mesmo com o busto de Castro Alves.

Figura 1: Busto do Barão do Rio Branco | Foto: do autor

A rica história da Praça Castro Alves (figura 2) remonta às primeiras décadas do século XX, quando já figurava entre os principais logradouros do município, conforme o memorialista Francisco Borges de Barros[3]. Nela, também fora construído o belo prédio do Grupo Escolar de Ilhéus, inaugurado em 31 de dezembro de 1915, pelo coronel Antônio Pessoa. Durante anos o colégio, que na década de 1930 passou a chamar-se Grupo Escolar General Osório,prestou relevantes serviços ao povo ilheense, sendo atualmente sede da Biblioteca Pública Adonias Filho e do Arquivo Municipal João Mangabeira. Não podemos esquecer,é claro,do belo busto do poeta Castro Alves, encomendado ao escultor Pasquale De Chirico a pedido do município e do diretor do antigo Ginásio Castro Alves, o advogado Ananias Pereira Rebello, sendo ali assentadona data comemorativa da Lei Áurea, em 13 de maio 1929[4].

Figura 2: Praça Castro Alves na década de 40. | Foto: r2cpress.com.br

O homenageado em questão, o poeta baiano Antônio Frederico de Castro Alves nasceu no município de Muritiba, em 14 de março de 1847. Ingressando na Faculdade de Direito de Recife,logo aprofundou-se na vida literária acadêmica, sendo bastante admirado pelos seus versos. Enveredando pelo campo da poesia social passou a dedicar-se à causa abolicionista, o que lhe rendeu a alcunha de “cantor dos escravos”, em razão de obras-primas como Os escravos e Espumas Flutuantes. Faleceu aos 24 anos, em decorrência de uma tuberculose. Desde então passou a ser reverenciado como um dos maiores expoentes do romantismo brasileiro,tendo sido elevado a condição de imortal pela Academia Brasileira de Letras, onde é o patrono da cadeira nº 7[5].

Consagrado também em espaço público, Castro Alves passou a receber diversas homenagens, emprestando seu nomee imagem a um incontável número de ruas e praçaspelo Brasil. A propósito, a consagração pública por meio da colocaçãode um busto ou estátua em espaçourbano, de acordo comRicardo Oriá, era bastante comum no início da República, prática inspirada no fenômeno francês do século XIX conhecido como estatuamania, que marcou o desenvolvimento da escultura em praça pública para a promoção do civismo[6].

Para tal, recorria-sefrequentemente ao panteão dos heróis nacionais, cujasexistências mereciam ser rememoradas, o que segundo o historiador Paulo Micelinão se dava ao acaso, sendo os homenageadosresponsáveis “por indicar os caminhos da humanidade e os papéis destinados ao demais”[7]. Personalidades como Rui Barbosa, Rio Branco e Castro Alves pareciam cumprir bem esse papel, pela consistência de suas obras e por sua dedicação às causas nacionais, merecendoa reverência e a gratidãode todos os brasileiros.Logo, suapresença no espaço público se justificavapelo caráter cívico-pedagógico.

Assim como no caso da Barão do Rio Branco, a Praça Castro Alves poderá vir a ter seu nome alterado por força de uma lei municipal proposta pelo legislativo, não passando por uma ampla discussão com a sociedade ilheense e instituições ligadas à preservação da memória e história locais. O busto de Castro Alves (figura 3), a partir da proposição de extinção da denominação da praça vai aos poucos perder seu significado, já que a razão de sua existência é patentear a homenagem ao ilustre poeta. Sua permanência na praça vai tornar-se questionável, já que, nessa circunstância, não se constrói uma relação de identificação entre o busto e a população, o que é reforçado pela ausência de uma simples placa que o discrimine.

Figura 3: Busto de Castro Alves na praça. |Foto: do autor.

Em seu aniversário de 90 anos merecia melhor sorte do que ter seu nome retirado do espaço que o acolheu durante décadas.Forjado no bronze para perpetuar o exemplo de civismo almejado para as gerações futuras, do alto do seu pedestal, cujas pedras foram“extraídas do solo ilheense”[8], seguirá condenado à distração dos passantes, relegado num canto daquela praça,até que um dia desaparecerá… Triste destino para o poeta que eternizou em seus versos a expressão “a praça é do povo como o céu é do condor”[9], e que nela não mais encontra o seu espaço.


[1] Especialista em História do Brasil pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

[2] Extraído do site: www.nossailheus.org.br, em 10 de junho de 2019. 

[3] BARROS, Francisco Borges de. Memória sobre o município de Ilhéus. 3. Ed Ilhéus: Editus, 2004, p. 129.

[4] CAMPOS, João da Silva. Crônica da capitania de São Jorge dos Ilhéus.Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 2006, 536 p.

[5]Extraído do site: www.academia.org.br, em 10 de junho de 2019.

[6]ORIÁ, Ricardo.Os monumentos históricos de Fortaleza (1888 – 1929). Fortaleza: P. Escritos, 2017.

[7] MICELI, Paulo. O mito do herói nacional.3ª ed. São Paulo: 1991, p. 10.

[8]Correio de Ilhéos, 8 de março de 1928.

[9]Versos do poema O Poder ao Povo, extraído do site: www.projetomemoria.art.br, em 10 de junho de 2019.


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