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Ponto de Cultura Indígena da Bahia, Thydêwá representa o Brasil em seminário no Vaticano

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Equipe reunida na sede da Thydêwá, em Olivença (Ilhéus, Bahia)

Um projeto desenhado na Bahia em 2015, por um índio Pankararu e um argentino radicado no Brasil há 22 anos, será apresentado no Vaticano durante o seminário “Entre la Universidad y la Escuela, ¿Un muro o puente?” (Entre a Universidade e a Escola, um Muro ou uma Ponte?), de 27 a 29 de maio, na Pontifícia Academia das Ciências. Cinco organizações não governamentais foram convidadas para o evento – uma israelense, uma espanhola, uma nigeriana, uma djibutiense e a brasileira Thydêwá, que ali apresentará o projeto “Guardianes de la Madre Tierra” (Guardiães da Mãe Terra) a representantes de 30 universidades de diferentes regiões do mundo. O Papa Francisco fará a cerimônia de encerramento e receberá cada um dos participantes do evento.

Sebastián Gerlic viaja no fim de maio para o Vaticano (Fotos: Arquivo ONG Thydêwá)

Sebastián Gerlic, presidente da Thydêwá, recebeu convite das Scholas Occurrentes (organização internacional de direito pontifício instituída em 2013) para participar do encontro e levará com ele seu parceiro na formulação do projeto, Paulo Celso Pankaruru. “A etnia Pankararu está junto com a Thydêwá desde a nossa fundação, em 2002. Fica no sertão de Pernambuco, tem aproximadamente 10 mil indígenas. Paulo é o primeiro índio brasileiro a ser advogado (com carteira de OAB), dedica-se ao direito ambiental”, comenta o argentino, que se encantou com o Brasil depois de umas férias em 1994 e aqui está desde então.

Segundo ele, o projeto que os leva a conversar com o papa tem sua raiz no Brasil, mas tem alcance maior, focando suas atividades “nos diálogos interculturais como forma de nos entendermos todos sendo parte de um único ser: a Terra”. “Dialogar é sempre enriquecedor. Não temos dúvida que iremos aprender muito com esta viagem. E da mesma forma que esperamos contribuir com o aprendizado de outras pessoas, esperamos colaborar na tecelagem dos movimentos que existem pela vida”, afirma.

Gerlic conta que ele e Paulo Celso Pankararu começaram a pensar no projeto “Guardianes de la Madre Tierra” depois de receber de Janaína Paim, gerente de relacionamento institucional da Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (ANEC), a “Carta encíclica  Laudato Si’ do Santo Padre Francisco sobre o Cuidado da Casa Comum”. Janaína esteve no Vaticano debatendo educação e povos indígenas do Brasil em fevereiro de 2015, na mesma ocasião em que o historiador Célio Turino se encontrou pela primeira vez com o Papa Francisco para falar da experiência dos Pontos de Cultura e de como eles poderiam contribuir com o projeto Scholas Occurrentes.

As “escolas do encontro”

Scholas Occurrentes é uma rede mundial de “Escolas do Encontro” idealizada pelo Papa Francisco. Presente em 82 países, tem como missão integrar as comunidades, com foco naquelas de menores recursos, buscando integrar escolas (públicas e privadas) e redes educativas de todo o mundo a partir de propostas tecnológicas, esportivas e artísticas. A iniciativa, de caráter laico, tem como antecedente a “Escuela de Vecinos” impulsionada pelo papa quando ainda era arcebispo de Buenos Aires.

São vários os programas educativos que fazem parte da organização internacional. As Cátedras Scholas – que promovem o seminário no fim de maio – pretendem ser um espaço acadêmico de qualidade, “pontos de reflexão e ação conectados em uma grande rede, na qual cada sujeito (professores, pesquisadores, estudantes) se enriquece no encontro com o outro, através de vínculos que se desenvolvem entre as distintas universidades de todo o mundo”.

Uma realização das Scholas Occurrentes em  parceria com a Escola de Alta Formação EIS, da Universidade Lumsa, de Roma, o seminário “Entre la Universidad y la Escuela, ¿Un muro o puente?” foi pensado como um espaço de estudo e debate acadêmico sobre experiências “fecundas” que tiveram impacto em seus territórios e expressam alguns critérios identitários da pedagogia de Scholas.

Diálogos interculturais

Criada no estado da Bahia em 2002, a Thydêwá nasceu da alquimia multicultural de um coletivo formado por indígenas de Alagoas, Bahia e Pernambuco, duas paranaenses, uma gaúcha, um baiano, um chileno e um argentino. Seu objetivo é “promover a consciência planetária, valendo-se do diálogo intercultural, da valorização da diversidade e das culturas tradicionais, visando um desenvolvimento integral para todos em harmonia e paz”.

A organização é responsável por um Pontão de Cultura, o Esperança da Terra, que já seria na prática o que o Vaticano, inspirado no modelo brasileiro dos Pontos de Cultura, vem chamando de “Ponto de Encontro”. “Da mesma forma que já éramos Ponto de Cultura antes de 2004 e recebemos o reconhecimento assim que foi lançado o primeiro edital do programa Cultura Viva, a Thydewá já é um Ponto de Encontro, embora ainda não tenha formatado um projeto nesses moldes nem receba apoio financeiro para isso”, diz Sebastián Gerlic.

Entre os principais projetos realizados pela ONG estão a rede Índios On-Line, a Oca Digital e a série de livros “Índios na visão dos índios”. Em 2015, a Thydêwá foi uma das ganhadoras do Edital IberCultura Viva de Intercâmbio, na categoria 3, com o projeto Kwatiara Abya Yala (Escrita Indígena da América). Kwatiara é uma coleção de livros digitais com autores de diferentes etnias do território brasileiro. Com o apoio do programa de cooperação IberCultura Viva, a coleção passa a ser ibero-americana, incluindo dois e-books produzidos em comunidades indígenas da Argentina.

“O Canto da Lua” foi um dos e-books lançados pela organização

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