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Gente da Nossa Ilhéus – Mãe Ilza Mukalê

‘Gente da Nossa Ilhéus’ é um espaço reservado para o fortalecimento da cidadania, por meio da difusão de conteúdo exclusivo produzido pela equipe de comunicação do Instituto Nossa Ilhéus – voluntários e colaboradores. O destaque aqui é para contar um pouco sobre quem inspira enquanto sociedade civil no exercício de sua cidadania, contribuindo para uma Ilhéus melhor, sem deixar de ser gente como a gente. Faz parte da nossa linha de atuação Educação para Cidadania.

 

Mãe Ilza Mukalê é gente da nossa Ilhéus

 

O dia 13 de março do ano de 1934 marca o nascimento de uma mulher que faz história em Ilhéus: Hilsa Rodrigues Pereira dos Santos, mais conhecida como Mãe Ilza Mukalê (ou Mameto Mukalê), a líder religiosa do Terreiro Matamba Tombeci Neto. Localizado no alto da Conquista, é um dos mais destacados representantes das casas de religiões de matriz africana na região e vem capitaneando iniciativas que promovem a autoafirmação do povo negro, a manutenção dos seus valores e de sua identidade. Mas, para entender o protagonismo do Terreiro, vamos viajar na história de Mãe Ilza, que é gente da nossa Ilhéus.

O Terreiro de Matamba Tombenci Neto possui matriz em Salvador e é considerado primeiro de nação Angola no Brasil. A linhagem que o criou em Ilhéus, em 1885, na região do Catongo, próximo ao Engenho Santana, e que antecede Mãe Ilza, é composta por: Tiodolina Félix Rodrigues (Mãe Iyá Tidú), fundadora e avó de Mãe Ilza; seu tio, Euzébio Rodrigues (o Tata Gombé), e sua mãe, Dona Roxa (Mameto Bandanelunga).

O amor e o respeito entre Ilza e Dona Roxa chamava atenção de todos. “Ela é o espelho da minha vida”, lembra. Aos 13 anos e recém-feita no candomblé, Ilza já realizava atividades auxiliando Dona Roxa, sendo ‘Mãe Criadeira’ e ‘Mãe Pequena’. Gostava muito de carnaval e participou da fundação da primeira escola carnavalesca de Ilhéus, “Maior sou eu”, de Augustinho Fidélis – onde figurava na ala das baianas, momentos que lembra com grande alegria -, e do primeiro bloco afro Lê-Guê DePá. Após se casar, trouxe ao mundo 14 filhos, sendo 10 homens e 4 mulheres.

Com a morte de Dona Roxa, em 1973, o Terreiro precisava de uma nova condução, alguém que seguisse a missão espiritual e fortalecesse a imagem e o trabalho dos seus antepassados. Começava uma nova fase para Mãe Ilza, na qual seu marido lhe impusera uma difícil escolha: ou o casamento ou a condução do Terreiro com restrições que ela não poderia aceitar, por respeito à confiança que sua mãe lhe tinha nas atividades religiosas.

Em uma época em que sua condição não lhe conferia autonomia, sendo mulher, mãe, sem emprego e tendo até então vivido apenas para a família, em 1975, Mãe Ilza toma a decisão de assumir o trono de sua genitora, tornando-se a 4º geração da família Rodrigues a dar seguimento ao Terreiro.

Depois de aceitar o que a vida lhe deu como missão, seu marido foi embora e ela passou a criar os filhos sozinha, além das meninas que sua mãe cuidava, ficando responsável pelo sustento de quase 20 pessoas. Após vender boa parte do que tinha em casa para dar conta das necessidades da família, Mãe Ilza mergulhou na missão que sua mãe lhe confiou, confirmada pelos búzios, dando início à direção do Terreiro, ofício repleto de responsabilidades, contando com ajuda do seu pai e dos seus filhos nesta nova etapa de sua vida.

Sempre atenta a seus antepassados, Ilza completa este ano 42 anos no cargo e segue destacando-se como liderança religiosa e figura alinhada ao fortalecimento da cultura negra, por meio da realização de palestras e participações em seminários e encontros em diferentes instituições, além da promoção do espaço e de iniciativas que promovem a arte e o bem estar social – como o Bloco e o Balé Afro Dilazenze, o Projeto Social Batukerê, a Organização Gongombira de Cultura e Cidadania, e o Troféu Mãe Ilza Mukalê, que agracia, anualmente, mulheres que fazem a diferença em diversas áreas.

“Eu nunca andei alisando os bancos da faculdade, mas aprendi muito na escola da vida”, repete Mãe Ilza, que recebeu, em 2016, o título de Doutora Honoris Causa, da Universidade Estadual de Santa Cruz, homenagem que se somou aos diversos troféus, comendas e prêmios recebidos.

A ilustre filha de Ilhéus declara seu amor pela cidade: “Ilhéus é o meu tudo! Uma cidade histórica e rica em todos os aspectos!”. Ela destaca que o município é berço de muitos artistas, de uma cultura riquíssima, histórias e estórias, e que precisam ser mais valorizadas pelas pessoas que têm o poder de concretizar melhorias. “Muitos dos meus filhos e netos se espalharam pelo mundo. Quando chegam aqui para me visitar choram antes de ir embora, de tanto que amam essa cidade, mas não ficam devido à falta oportunidade em suas áreas de atuação”, conta.

Com o otimismo inerente a uma matriarca, Mãe Ilza vive a sonhar e a vibrar por dias de ouro da nossa Ilhéus, cidade abençoada por todos os lados pelas águas de Iemanjá, pelas águas doces, pela história do Engenho de Santana – onde aconteceu o primeiro movimento de escravos por melhores condições de vida e de trabalho, em 1789.

“Tudo que Ilhéus tem para mostrar enche o coração de seus próprios cidadãos e de todos que vêm de fora para conhecer”, conclui.

Pesquisa e texto: Bruna Sílvia – voluntária de comunicação do Instituto Nossa Ilhéus, estudando no 2º semestre de Comunicação Social da UESC.

Pesquisa e foto: Bruna Cleisla e Ib Campos

Supervisão e revisão: Tacila Mendes – gerente de comunicação do Instituto Nossa Ilhéus.

 

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